quinta-feira, 10 de maio de 2012

O que é a missa?


Homilia de Pe Marcelo Tenório (26/04/12)
V. Ave Maria, Gratia plena, dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventris tui Jesus.
R: Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

V. Ora Pro nobis sancta Dei Genitrix,
R: Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

A última Ceia do Senhor, a Missa In Cœna Domini, é um momento de júbilo e um momento de profundo pesar, de uma profunda tristeza. De júbilo, porque o Senhor instaura o Seu sacrifício, o mistério da Missa - é a Missa que Ele celebra. E, nesta Missa, Ele se dá: não mais os cordeiros antigos, não mais o sangue de touros e de cabritos, mas dEle mesmo que se entrega em resgate. É a primeira Missa que Nosso Senhor celebra como Sumo e eterno Sacerdote. Por isso, São Paulo vai dizer aos hebreus que Nosso Senhor não entrou no santuário construído com mãos humanas, mas de uma vez por todas Ele, como sacerdote eterno, como vítima, com Seu próprio sangue, entra no Santo dos Santos uma só vez e, assim, resgata por um só ato a humanidade inteira.

É júbilo porque a Missa nos é dada e por que a Santíssima Eucaristia é entregue à Igreja para que, renovando este gesto, possamos nós, da Igreja militante continuar na história, até a consumação dos séculos, este memorial da paixão, morte e ressurreição. Padre Pio respondeu alguém que o interrogou sobre o que é a Missa: 

“A Missa é o calvário todo. E a minha responsabilidade é única no mundo.”

 Também hoje, Nosso Senhor nos dá o mandamento do amor. E este mandamento do amor é o “amar a Deus sobre todas as coisas”. E é neste amar a Deus sobre todas as coisas que o Filho nos dá este exemplo, fazendo a vontade do Pai, e se entrega até a morte e morte de cruz, como cantávamos antes do evangelho: “Cristo se fez por nós obediente até a morte, e morte de Cruz, e por isso Deus o exaltou e deu o nome acima de todo o nome”.

Também, a instauração do sacerdócio católico. Hoje, nosso Senhor não só nos deixa a Eucaristia, o Seu sacrifício; não só nos dá o Seu mandamento de amor, mas também instaura o Seu sacerdócio. E, como dizia muito bem o nosso Arcebispo Dom Dimas na Missa dos Santos Óleos: “O sacerdote não é apenas um alter Christus, um outro Cristo; o sacerdote, na verdade, é Cristo, porque o sacerdote empresta a Nosso Senhor suas mãos, sua voz, todo o seu ser, todo o seu corpo, para que, através destas pessoas ungidas, Cristo continue a governar, a santificar e a ensinar.”

Era São João Maria Vianney que dizia: 

“Ide aos anjos e pedi a eles o perdão dos pecados, e eles vos dirão: não podemos. Ide aos anjos e pedi a todos eles que vos dê o pão do céu, e eles responderão: não podemos. Ide à Santíssima Virgem e pedi também o perdão dos pecados e o Pão do Céus, e a Santíssima Virgem responderá: não posso. Mas, ide ao mais simples dos sacerdotes, santo ou pecador; só ele poderá responder: teus pecados estão todos perdoados.”

 Eis o júbilo da festa de hoje, acompanhado pelos sinos e pelo Gloria. Mas, daqui a pouco, Nosso Senhor se despede e vive aquilo que O espera: o martírio, o calvário, o abandono. E, então a Igreja entra no sofrimento do Senhor e convida a todos nós a estarmos juntos com Ele no Getsêmani, a não abandoná-lo, a não deixá-lo sozinho. Todos foram embora, ninguém ficou. Até mesmo João, que volta depois; mas, naquele momento todos vão embora. João não ousa, em nenhum momento, dizer: “Que me preguem na cruz com o meu Senhor”. Apenas some, desaparece. Cristo está só, mas Sua Mãe Santíssima, com certeza, o acompanha de longe, talvez sem nem saber onde seu Filho estava preso, onde seu Filho se encontrava, mas Ela estava unida a Ele. Os demais fugiram apavorados diante do aparente fracasso de Nosso Senhor; este fracasso que vai ser aniquilado com a vitória da cruz no Sábado Santo, aos primeiros raios de sol do Domingo da Páscoa.

Este momento, para nós, é um momento sagrado, é um momento sublime, em que podemos contemplar Nosso Senhor em dois aspectos: na sua profunda alegria em ter consumado tudo e feito a vontade do Pai ao extremo, como João vai nos falar “Amou-nos até o fim” – In fine dilexit – mas também na angústia, na dor, na desolação que cairá sobre Ele.

E o que nós sabemos? 

Que o peso da cruz é o nosso peso, que somos nós que lhe pesamos na cruz. O Seu suor com sangue é por causa dos nossos pecados: somos nós que Lhe pesamos, somos nós que aumentamos as Suas angústias. Não foram os demônios que condenaram Jesus à morte, fomos nós: nós o condenamos, nós somos os responsáveis pela Sua morte e – o pior – nós somos responsáveis pela Sua paixão, que se arrasta até o fim dos séculos em cada pecador que se obstina no pecado, até em nós quando continuamos imersos em nossas falhas, em nossas podridões, ou até mesmo em pecados veniais que, diante de Deus e diante daquilo que Ele deseja para nós – a perfeição e o Céu – não deixa de ser atraso e empecilho contra o testemunho do primeiro amor, do primeiro Mandamento que é amar a Deus sobre todas as coisas, e do mandamento de amarmos ao próximo como, ou – às vezes, ou muitas vezes, ou quase sempre – mais que a nós mesmos.

 Que esta santa Missa in Cœna Domini abra para nós a porta das graças de Deus, a fim de que, neste Tríduo Santo, tenhamos a graça das graças, que é perseverar até o fim, até o último instante da nossa vida, como costumo dizer: “A graça não é começada em mim, a graça é terminada em mim.” Se começamos bem e não terminamos bem o que fizemos, acontece o que São Domingos Sávio dizia: “Se no final de minha vida não tiver me tornado santo, foi inútil ter passado por esta vida.”

Acompanhemos Jesus em cada instante, em cada momento, em Sua paixão que se abre nesta Última Ceia, ao lado de São João, o discípulo que Ele mais amava; ao lado de São Pedro que, apesar de seu temperamento, amava a Nosso Senhor; ao lado dos demais; mas, entre eles, estava Judas, o traidor, aquele que seria melhor nunca ter nascido.

Homilia proferida no dia 5 de abril de 2012, Missa da Ceia do Senhor (Lava-pé

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