quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O ANO DA FÉ




Cidade do Vaticano (Quarta-feira, 17-10-2012, Gaudium Press) “Com a fé muda realmente tudo em nós e para nós, e se revela com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação dentro da história, o sentido da vida, o gosto de sermos peregrinos em direção à Pátria celeste”.
A partir de hoje, durante o Ano da Fé, Bento XVI propõe o novo ciclo das catequeses dedicado ao tema da fé através da meditação e reflexão sobre as afirmações do Credo. “Hoje iniciamos um novo ciclo de catequeses que se inserem no contexto do Ano da Fé, inaugurado recentemente. Com estas catequeses, queremos percorrer um caminho que leve a reforçar ou a reencontrar a alegria da fé em Jesus Cristo, único Salvador do mundo”, disse. E com  isso o Pontífice decidiu interromper por uma ano o ciclo sobre a oração.
O Ano da Fé que foi inaugurado há seis dias é colocado no 50° aniversário da abertura do Concílio Vaticano II com o objetivo muito preciso e ambicioso de “retornar a Deus” e de “aprofundar e viver com maior coragem a própria fé” e também de “reforçar ou reencontrar a alegria da fé”. O modo que o Santo Padre apresenta e afirma com frequência é também concreto e cristão – livre de ideologias ou interesses, ao encontro pessoal com Jesus Cristo.
O Santo Padre no início recordou que “o encontro com Cristo renova as nossas relações humanas, orientando-as, de dia em dia, a uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor”. O que diz respeito não somente “à área do saber intelectual, mas é uma mudança que envolve a vida por inteiro: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções, relações humanas”.
Por isso a fé “não é alguma coisa de estranho, de distante da vida concreta, mas sim a sua alma”.
A mensagem cristã da fé em Deus dá a esperança ao mundo de como viver a vida. “A fé afirma que não há verdadeira humanidade senão nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas – afirmou o Papa – no qual o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se exprime como doação, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço desinteressado pelo outro. Onde há domínio, posse, exploração, mercantilização do outro pelo próprio egoísmo, onde há arrogância do eu fechado em si mesmo, o homem é empobrecido, degradago, desfigurado. A fé cristã, operosa na caridade e forte na esperança, não limita, mas humaniza a vida, aliás, a torna plenamente humana”.
Credo e Catecismo
Bento XVI afirmou em seguida a necessidade do conhecimento do Credo, da Profissão de Fé ou Símbolo da fé para se aproximar “ao evento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré”. Portanto, convidou a “que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado” e não somente a nível intelectual, mas vivido na cotidianidade. “No Credo – observou – se insere a vida moral do cristão, que nele encontra o seu fundamento e a sua justificação”.
Portanto, o Catecismo da Igreja Católica desejado pelo Beato João Paulo II tem como objetivo “confirmar e conservar este núcleo central das verdades da fé, transformando-o em uma linguagem mais inteligível aos homens do nosso tempo”.
O Santo Padre reafirmou a atualidade do Catecismo para os nossos temas caracterizados por uma sociedade profundamente mudada, pelos “processos da secularização e de uma difundida mentalidade niilista, na qual tudo é relativo, marcaram fortemente a mentalidade comum”. Assim, prosseguiu, “a vida é vivida com frequência com leveza, sem ideiais claros e esperanças sólidas, dentro das ligações sociais e familiares líquidos, provisórios. Principalmente as novas gerações não são educadas na busca da verdade e do sentido profundo da existência que supere o contingente, da estabilidade dos afetos, da confiança”.
Relativismo
Falando sobre o individualismo e o relativismo o Papa falou que no Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, foram evidenciados alguns aspectos: “uma fé vivida em modo passivo e privado, a rejeição da educação à fé, a fratura entre fé e vida”.O Papa advertiu que “o relativismo leva a não ter pontos firmes”, aliás “suspeito e volubilidade provocam rupturas nas relações humanas, enquanto a vida é vivida dentro de experimentos que duram pouco, sem assumir responsabilidades”.
“O cristão com frequência não conhece nem mesmo o núcleo central da própria fé católica, do Credo, deixando assim espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre as verdades a serem acreditadas e sobre a singularidade salvífica do cristianismo”, continuou o Santo Padre comunicando que as catequeses das audiências gerais do Ano da Fé serão dedicadas às afirmações do Credo.
Redescobrir a Fé
Aos fiéis de língua portuguesa, Bento XVI afirmou que “o nosso mundo de hoje está profundamente marcado pelo secularismo, relativismo e individualismo que levam muitas pessoas a viver a vida de modo superficial, sem ideais claros.”
Por isso, – continuou – é essencial redescobrir como a fé é uma força transformadora para a vida: saber que Deus é amor, que se fez próximo aos homens com a Encarnação e se entregou na cruz para nos salvar e nos abrir novamente a porta do céu. De fato, a fé não é uma realidade desconectada da vida concreta.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A porta está sempre aberta!




Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Müller: “Não haverá mais conversações com a Fraternidade”.
Dom Müller e o guru-mor da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez: não, eles não estavam negociando quanto à Fé.
Dom Müller e o guru-mor da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez: não, eles não estavam negociando quanto à Fé.











 - Roma, 4 de outubro de 2012 -  Pouco antes do 50º aniversário do Concílio Vaticano II, o novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Arcebispo Gerhard Ludwig Müller (foto), põe fim às negociações com a Fraternidade São Pio X.
Ele disse literalmente: “Essa Fraternidade não é uma parceira de negociações para nós, porque não existem negociações no que tange a Fé”. O Arcebispo Müller se expressou dessa maneira em entrevista exclusiva à rádio NDR Kultur.
O escopo de tarefas do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé inclui também a questão de uma possível integração da Fraternidade tradicionalista na Igreja Católica. Em vista de um possível recomeço dos tradicionalistas, o Arcebispo Müller disse: “Em um sentido pastoral a porta está sempre aberta”.
O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé esclareceu ainda em conversa com a NDR Kultur que: “Não existem reduções no tocante à Fé Católica, precisamente como ela foi formulada validamente no Concílio Vaticano. O Concílio Vaticano II não está em contradição com toda a tradição eclesial, na melhor das hipóteses, está em contradição com algumas falsas interpretações da Fé Católica”.
O Arcebispo Müller disse ainda: “Não podemos entregar a Fé Católica a negociações. Não existem concessões”. Na Congregação para a Doutrina da Fé os procedimentos seguintes serão agora resolvidos em união com o Papa.
Os padres da Fraternidade teriam que aceitar a explicação que lhes foi apresentada, enfatizou Dom Müller. “Creio que agora não existe mais nenhuma nova conversação”, disse o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
Em vista do 500º aniversário da Reforma, no ano de 2017, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé explicou que os acontecimentos devem ser ordenados de maneira historicamente correta. Isso seria uma oportunidade de nos certificarmos do processo ecumênico e de tomarmos isso como um impulso, a fim de que também o caminho para uma maior unidade da Igreja seja empreendido de maneira consciente, objetivando a unidade visível de todos os cristãos em uma Igreja.
Com relação a um dos gestos de reconciliação entre católicos e protestantes sugeridos pela líder da Igreja Evangélica Luterana da Alemanha (EKD), Margot Käßmann, Dom Müller disse que essa reconciliação já teria sido praticamente alcançada há muito tempo, através de todo o processo ecumênico. Já se teria muito em comum e não se estaria no começo. “Não precisamos contemplar essa data agora de maneira tão mágica”, esclareceu Dom Müller.
A entrevista com o Arcebispo Gerhard Ludwig Müller foi conduzida por Florian Breitmeier. Ela poderá ser ouvida no programa “Das Gespräch” na noite de sábado, 6 de outubro, às 18:00h no canal NDR.kultur.
Comentário da FSSPX-Alemanha: Não se poderia esperar outra coisa. Ainda assim é inexplicável como o Papa Bento XVI, nesta situação difícil das conversações, pôde nomear um oponente declarado da Fraternidade como parceiro de negociações. Será que o Papa queria aumentar a pressão sobre a Fraternidade através do Arcebispo Müller, para que ela reconhecesse o Concílio também em seus pontos controversos?
Em caso afirmativo, então, esse plano foi de antemão condenado ao fracasso. A Fraternidade permanecerá sempre fiel à linha de seu fundador, que participou ele mesmo do Concílio e já naquela época reconhecia claramente que, embora haja muita coisa correta no Concílio, os progressistas conseguiram inserir passagens ambíguas e falsas.
Precisamente essas passagens posteriormente formaram a base para a interpretação do Concilio como brecha para uma nova eclesiologia: A Igreja como um caminho entre muitas religiões com os mesmos direitos.
Até que essas passagens polêmicas sejam esclarecidas e a falsa eclesiologia seja rejeitada, não se dará o reconhecimento do Concílio de maneira abrangente, como fala o Arcebispo Müller.

sábado, 29 de setembro de 2012

As heresias de Ana Catharina Emmerich

    Disseram alguns entusiasmados por esse filme que ele era uma grande obra apologética--a maior de nosso tempo -- e que converteria a muitos. Os convertidos, e mesmo alguns dos defensores desse filme, nem deixaram de ir à praia, na semana santa, para meditar lá, enquanto se bronzeavam, nas chagas de Jesus crucificado. 
    Mel Gibson leu, sim, o livro escrito por Clemens Brentano com as visões de Anna Kataharina  Emmerick intitulado Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus , publicado por Clemens Brentano.  Embora no filme pouca coisa haja diretamete tirada de Katharina Emmerick, a fama dessa eplícila fez que se vendessem muitos livros dessa falsa vidente, em particular esse que acabei de citar. Em português, esse livro foi editado pela Livraria Editora Lar Católico, Juiz de Fora, em 1960.
    Na página 29 desse livro, se fala da "Bênção da promissão ou o santo da Arca da Aliança". E,  em nota ao pé das paginas 29 e 30, se lê o seguinte:

"Dessa bênção da promissão conta Ana Catarina o seguinte: "Quando Eva foi formada, vi que Deus deu uma coisa a Adão que era como se torrentes de luz emanassem de Deus, aparecendo-lhe em forma humana, da fronte, da boca, do peito e das mãos e se unissem como esfera de luz, que entrou no lado direto de Adão, do qual Eva foi tirada. Somente Adão o recebeu. Era este o germe da bênção de Deus. Por ter comido do fruto proibido, foi tirada a Adão essa bênção de geração pura e santa em Deus. Vi a segunda Pessoa divina descer com algo em forma de cutelo na mão e tirar a bênção de Adão, antes deste cometer pecado.

"Abraão recebeu depois a benção da promissão, quando o Anjo o abençoou; após ele, também Moisés, do qual veio a Arca da Alainça. Vi este Mistério ou bênção numa espécie de invólucro, como um conteúdo, um ser ou uma força. Era pão e vinho, carne e sangue; era o germe da bênção antes do primeiro pecado; era a existência sacramental da geração antes do pecado, conservada aos homens pela religião, que lhes possibilitou pela piedade uma estirpe mais e mais purificada, que finalmente terminou em Maria que concebeu pelo Espírito Santo, o Messias há  tanto tempo anelado.
"Vi diversas vezes o Sumo Pontífice, estando no Santo dos Santos, empregar a bênção da promissão, como uma arma ou uma força, movendo-a de um lado para outro, para conseguir proteção ou bênção, concessão de uma graça pedida, um benefício ou um castigo.
"Não a tocava com as mãos suas. Mergulhava-a também na água, para fins santos, a qual se dava a beber, como bênção. Isméria, mãe de Sant´Ana, bebeu também dessa água e foi assim disposta para a conceição de Ana. Esta não bebeu da água sagrada; pois a bênção já estava com ela".
"Quem quiser informar-se mais sobre o santo Mistério da Arca da Aliança ou o germe da Bênção, leia" A vida pobre e a dolorosa paixão de Jesus Cristo e de sua SS. Mãe" , 4a. ed. Pustet, Reegnsburg, ( Introdução, LXIX e 5, 10, 14, 15, 52, 67 -69).
                                            
    Esse texto absurdo e herético das visões de Anna Katharina Emmerick afirma: 

1 -- Que de Deus emanou uma matéria

    Ora, de Deus nada emanou. Aceitar a emanação é afirmar que algo da substância divina saiu de Deus, e veio para o homem. Isso é herético.
2- A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tirou com uma faca essa matéria de Adão antes que ele pecasse.    Ana Katharina Emmerich faz uma apresentação da  Segunda Pessoa da Santíssima Trindade grosseiramente antropomórfica. Mais grosseira ainda é a idéia de que Deus usou uma faca para arrancar de um Adão distraído, e pelas costas, o tal Germe da Bênção que nunca existiu.
3 - O Germe da Bênção seria um ser, uma força, pão e vinhoFica patente aí que o tal Germe da Bênção inventado pela imaginação cabalista e romântica de Brentano era algo material. Ele começa a insinuar uma relação desse germe com a eucaristia ao dizer que ele era pão e vinho.
4- Esse Germe da Bênção teria relação com um modo de geração "sacramental"Brentano e Katharina Emmerick seguiam a doutrina gnóstica que condenava a geração sexual. Daí, ele distinguir um modo de "geração sacramental" -- não sexual -- que teria existido em Adão antes do pecado. E isso também é heresia gnóstica.
5- Descrição puramente fantasiosa de uma Bênção judaica precurssora da cerimônia da bênção do Santíssimo Sacramento.
    Essa descrição puramente imaginativa de Brentano ou Katharibna Emmerick insinua porém um erro grave contra a Fé: já no Antigo Testamento haveria um sacramento eucarístico. O que é absolutamente falso.

Noutro livro de Clemens Brentano narrando a Vida Da Santíssima Virgem segundo as pseudo visões de Anna Katharina Emmerick, brentano colocou uma nota na qual afirma que toda essa história do Germe da Bênção ele a tirou textos judaicos. 
    Diz ele:
    " Não fora sem escrúpulos e sem inquietação que redigimos estas explicações da Serva de Deus com o fim de imprimi-las quando soubemos que no livro Zohar ( redigido por Simon ben Yochai no segundo século da era cristã, mas que contém partes mais antigas), se acha , quase que palava pr palavra, o que ela diz aqui e em outras  numerosas comunicações sobre este Mistério da Antiga Aliança. Um leitor familiarizado com a antiga língua caldaica pode se convencer disso lendo as seguintes passagens: Zohar, Par Told´oth, p, 340~ibid , 345( Ausg Salzbach) Bereshit, p. 315, T´rumah, p. 251, etc" ( Clemens Brentano. - Anna Katharina Emmerick - Leben der heilige Jungfrau Maria, p. 55, nota 1).
    Brentano cita o Zohar, principal livro da Kabbalah judaica, e atribui esse livro escrito no século XIII por Moisés Shem Tv de Léon, ao rabi Simon ben Yochai.  Isso é um erro. hoje, se sabe bem que o Zohar é um pseudo epigráfico escrito na Espanha entre 1265 a 1300.
E ele cita mal o Zohar, dando as páginas e não os livros, capítulos e versículos como é costume citar esse livro cabalístico.
        Em outra nota do livro  Leben der heilige Jungfrau Maria, Brentano  cita ainda outa fonte para justificar a veracidade do Germe da Bênção: o livro de Petrus Galatinus De Arcanis Catholicae Veritatis ( Clemens Brentano. - Anna Katharina Emmerick - Leben der heilige Jungfrau Maria, p. 83, nota 1).
    Segundo ele, a matéria do corpo de Maria Santísisma  assim como a matéria do Corpo de Cristo teriam provindo dessa matéria divina emanada de Deus, posta em Adão e retirada dele antes que ele pecasse. Por isso, seria que Nossa Senhora foi concebida sem pecado original. Ora, se fosse assim Cristo não nasceu de Maria Virgem, mas seu Corpo seria se originado dessa matéria estranha a Nossa Senhora. O que é herético, pois dizemos no Credo que Cristo "nasceu de Maria Virgem"- "Ex Maria Virgine".     Essa é a principal e mais escandalosa das heresias colocadas nos livros da falsa vidente Anna Katharina Emmerick, da qual o filme de Mel Gibson fez propaganda.  
    Conforme o cabalista cristão do século XVI Petrus Galatinus toda essa "história" do Germe da Bênção teria origem no livro judaico Beershit Rabbah. Em minha tese de Doutorado dedico todo um capítulo a essa questão do Germe da Bênção, que Brentano acaba associando ao sexo de José do Egito e de sua esposa Aseneth. 
    Oportunamente publicarei esse capítulo de minha tese.     Escrevi essa tese de doutoramento, de mais de 800 páginas, fundamentada nos originais das "visões" das pseudo visões de Anna Katharina Emmerick e em centenas de livros, provando que as "visões" dessa pseudo mística eram  elocubrações cabalistas e esotéricas. Mandei minha tese para a Congregação para a Causa do Santos, em 1988.  Leia essa tese que está registarda na USP, na Pós Graduação.
    No site Montfort ,está publicado o capítulo dessa tese que conta a vida nada edificante dessa falsa "beata". Leia lá, como ela dormia no colo de Brentano. Como ela chupava o dedo do Padre que era seu diretor espiritual, como ele se deitava em cima dela soprando na boca dela o "espírito de vida" para curar suas dores de cabeça, e como ela se amamentava no seio de uma moça . Escolha depois entre essas cenas escandalosas, a imagem dela para colocar num altar de igreja. 
    Consta agora que essa falsa vidente está para ser beatificada, porque se excluiram de seu processo de Beatificação os textos de suas heréticas visões.  Se ela for beatificada graças á exclusão de suas visões heréticas, isso em nada muda os fatos de sua vida e nem o juízo que dela faço com base nesses fatos, pois a beatificação não implica em infalibilidade. 
In Corde Jesu, semper,

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pe Pio e a confissão









Autor: Dom Dimond, OSB
Tradução: Carlos Wolkartt

“Tens cantado um hino a Satanás, enquanto
Jesus, em Seu amor ardente, deslocou a cabeça por ti”

João XX, 21-23: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.

No Evangelho de João, vemos o poder de perdoar os pecados sendo conferido por Jesus Cristo sobre os Apóstolos. O poder de perdoar os pecados conferido sobre os sacerdotes validamente ordenados por um bispo seria um papel proeminente na vida e nos milagres de Padre Pio. De 1918 a 1923, Padre Pio ouvia confissões de quinze a dezenove horas, todos os dias. Nos anos 1940 e 1950, geralmente ouvia confissões por menos tempo diário, entre cinco a oito horas.

Cada confissão que Padre Pio ouvia durava, em média, somente três minutos – exceto em casos extraordinários. Segundo um cálculo, Padre Pio ouviu um total de aproximadamente cinco milhões de confissões (ou seja, mais de quinze milhões de minutos, ou mais de duzentas e cinquenta mil horas de confissão).

Tantas pessoas queriam que Padre Pio ouvisse suas confissões que geralmente tinham que esperar duas ou três semanas até terem oportunidade. O número de pessoas chegou a ser tão grande que foi necessário abrir um gabinete para distribuir bilhetes. Os bilhetes eram numerados; indicavam o lugar na fila do confessionário de Padre Pio. Este sistema de numeração foi implementado em janeiro de 1950, quando Padre Pio tinha 62 anos. Também foi instituída uma regra que limitava o tempo (em dias) entre uma confissão e outra, para cada penitente. Não era permitido confessar-se com Padre Pio mais de uma vez a cada oito dias.

Um homem de Pádua, que tinha ido se confessar ao Padre Pio, tentou fazer outra confissão entre os oito dias de espera. Para burlar o período de espera, mentiu acerca do número de dias que havia passado desde sua última confissão. Quando entrou no confessionário, Padre Pio lhe expulsou e lhe acusou brutalmente de mentiroso. Depois de ser expulso, o homem disse, em lágrimas: “Tenho dito muitas mentiras ao longo de minha vida, e pensava que poderia enganar a Padre Pio também”. Porém, Padre Pio tinha um conhecimento sobrenatural de seu ato.

Padre Pio exigia que toda a confissão fosse uma verdadeira conversão. Não tolerava a falta de franqueza na explicação dos pecados. Era muito duro com os que se desculpavam, falavam sem sinceridade, ou não tinham uma firme determinação em mudar. Exigia integral franqueza e honestidade do penitente. Também exigia uma verdadeira e sincera dor no coração, e uma firmeza absoluta nas decisões para o futuro.

Muitos dos penitentes de Padre Pio fizeram a declaração assombrosa de que, quando estiveram em seu confessionário, experimentaram a imponente impressão de estarem ante a cátedra do juízo de Deus.

Se o penitente não fosse verdadeiro, ou simplesmente lesse a lista de seus pecados sem o firme propósito de mudança, Padre Pio quase sempre gritava “fora!”. Muitas pessoas diziam que Padre Pio era bruto e severo, e que às vezes batia o painel do confessionário no rosto do penitente. Frequentemente, Padre Pio denunciava um penitente com uma frase dolorosa.

Um homem que foi expulso do confessionário por Padre Pio disse: “Que tipo de monge canalha é este? Não me deu tempo para dizer uma só palavra, e imediatamente me chamou de porco velho e me ordenou sair!”. Outra pessoa disse a este homem que Padre Pio provavelmente teve boas razões para chamar-lhe de porco velho e tratar-lhe desta maneira. “Não me ocorre por que”, disse o homem que havia sido expulso do confessionário; e então, depois de uma pausa, o homem disse: “talvez seja porque tenho uma relação íntima com uma mulher que não é minha esposa”.

Padre Pio também expulsava certos sacerdotes e bispos de seu confessionário. Certa vez Padre Pio disse a um sacerdote: “Se você soubesse que coisa tremenda é sentar-se no tribunal do confessionário! Estamos administrando o Sangue de Cristo. Devemos ter cuidado para não lançarmos este tesouro por todas as partes por sermos demasiados indulgentes ou negligentes”.

Outro homem foi confessar-se ao Padre Pio para lhe provar. Queria ver se Padre Pio podia dar-se conta de que estava mentindo. O homem disse ao frade que não estava ali para confessar os pecados, mas para pedir orações por um familiar. Isto não era verdade, e Padre Pio soube imediatamente. Padre Pio lhe golpeou no rosto e lhe mandou para fora do confessionário.

Uma mulher que chegava de uma longa viagem para ver Padre Pio lhe disse em confissão: “Padre Pio, faz quatro anos que perdi meu esposo, e não tenho ido à igreja desde então”. Padre Pio respondeu: “Porque perdeste teu esposo, também perdeste Deus? Fora! Fora!”, enquanto fechava rapidamente a janela do confessionário.

Pouco depois deste acontecimento, a mesma mulher recuperou sua fé, atribuindo isto à maneira em que Padre Pio lhe tratou – provavelmente reconhecendo como ela havia posto seu apego a seu esposo acima de Deus.

Andre Mandato falou sobre o momento em que foi se confessar ao Padre Pio: “Eu ia à igreja todos os domingos, porém não tinha nenhuma crença forte na confissão. Confessava-me pouquíssimas vezes, e nunca era totalmente sincero. Comecei a crer na confissão somente depois que fui a Padre Pio. A primeira vez que me confessei a ele, ouvi de sua boca os pecados que eu havia cometido”.

Katharina Tangari descreveu como era se confessar ao Padre Pio:

“... Padre Pio primeiramente questiona quanto tempo se passou desde nossa última confissão. Esta primeira pergunta estabelece um contato entre Padre Pio e o penitente; de repente parece que Padre Pio sabe tudo sobre nós. Se nossas forem pouco claras e inexatas, ele as corrige; temos a sensação de que... seu olho pode ver nossa alma como verdadeiramente ela é ante Deus”.

Padre Pio comentou sobre a quantidade de confissões que ouvia, e como era capaz de fazê-lo: “Houve períodos que ouvi confissões sem interrupção por dezoito horas seguidas. Não tenho nenhum momento para mim mesmo. Mas Deus me oferece suporte com eficácia em meu ministério. Sinto a força para renunciar a tudo, contanto que as almas regressem a Jesus e amem a Jesus”.

Juan McCaffery foi se confessar ao Padre Pio, e escreveu sua experiência extraordinária. McCaffery queria que Padre Pio rezasse por alguns de seus amigos. Ele recorda: “Bem, durante uma pausa, comecei a dizer ‘E então, Padre...’; mas ele me interrompeu com um sorriso e disse: ‘Sim, recorda-te de teus amigos também!’”.

Uma mulher chamada Nerina Noe foi a Padre Pio confessar-se. Ela lhe disse que estava pensando em deixar de fumar; não previa a brusca repreensão que Padre Pio lhe daria: “Mulheres que fumam cigarros são repugnantes”.

Frederick Abresch foi um desses penitentes que haviam sido convertidos depois de irem a Padre Pio para se confessarem. Aqui estão algumas coisas que ele descreveu sobre a incrível história de sua conversão:

“Em novembro de 1928, quando fui ver Padre Pio pela primeira vez, havia passado poucos anos desde minha mudança de protestante a católico, que se deu por conveniência social. Eu não tinha fé, ou ao menos entendo agora que simplesmente me iludia de tê-la. Tendo sido criado em uma família muito anticatólica e imbuída de preconceitos contra dogmas a tal grau que uma instrução rápida não poderia eliminar, eu estava sempre ávido de coisas secretas e misteriosas.

“Encontrei um amigo que me apresentou os mistérios do espiritismo. Logo, porém, cansei dessas mensagens inconclusivas de ultratumba; eu estava com fervor no campo do ocultismo, da magia de todos os tipos, etc. Então me encontrei com um homem que declarou, com um ar de mistério, que estava em posse da única verdade: ‘teosofia’. Em seguida me tornei seu discípulo, e comecei a acumular livros com títulos tentadores e atraentes na minha mesa de cabeceira. Com segurança em mim mesmo e cheio de vaidade, usava palavras como Reencarnação, Logos, Brahma, Maia, ansiosamente esperando alguma realidade grande e nova que aconteceria.

“Não sei por que (creio que era antes de tudo para agradar minha esposa), mas de vez em quando continuava recebendo os santos Sacramentos. Este era o estado de minha alma quando, pela primeira vez, ouvi falar de um Padre Capuchino, do qual me descreveram como um crucifixo vivo, realizando milagres contínuos.

“Crescendo em curiosidade, decidi ir e ver com meus próprios olhos. Pus-me de joelhos no confessionário da sacristia [e disse a Padre Pio que] considerava a confissão uma boa instituição social e instrutiva, mas que não cria na divindade do Sacramento em absoluto. O Padre, contudo, disse com expressão de grande dor: ‘Heresia! Então todas as tuas Comunhões foram sacrílegas... tens que fazer uma confissão geral. Examina tua consciência e recorda a última vez que fizeste uma boa confissão. Jesus tem sido mais misericordioso contigo que com Judas’.

“Então, olhando por cima de minha cabeça com olhos severos, ele disse: ‘Louvados sejam Jesus e Maria!’, e se foi à igreja para ouvir as confissões das mulheres, enquanto eu fiquei na sacristia, comovido e afetado profundamente. Minha cabeça estava girando e não conseguia me concentrar. Todavia, ouvia em minhas orelhas: ‘Recorda a última vez que fizeste uma boa confissão!’. Com dificuldade, tomei a seguinte decisão: Diria a Padre Pio que havia sido um protestante, e que mesmo após a abjuração, fui rebatizado (condicionalmente), e todos os pecados da minha vida passada foram apagados em virtude do santo Batismo, no entanto, para minha tranquilidade queria começar a confissão desde a minha infância.

“Quando o Padre voltou ao confessionário da sacristia, repetiu a pergunta: ‘Pois, quando foi a última vez que fizeste uma boa confissão?’. Respondi: ‘Padre, quando estava...’. Porém, nesse ponto o Padre me interrompeu, dizendo: ‘Fizeste uma boa confissão pela última vez quando estavas regressando de tua lua de mel; deixemos todos os demais, e comecemos a partir daí!’.

“Permaneci boquiaberto, abalado com uma letargia, e entendi que havia tocado o sobrenatural. O Padre, entretanto, não me deu tempo para refletir. Demonstrando seu conhecimento do meu passado inteiro, e na forma de perguntas, enumerou todas as minhas faltas com precisão e claridade... Depois que o Padre havia trazido à luz todos os meus pecados mortais, com palavras impressionantes me fez compreender a gravidade destas faltas, acrescentando em um tom de voz inesquecível: ‘Tens cantado um hino a Satanás, enquanto Jesus em Seu amor ardente deslocou a cabeça por ti’. Então ele deu minha penitência e me absolveu... Creio não somente nos dogmas da Igreja Católica, mas também na menor de suas cerimônias... para quitar esta fé, deve-se quitar também minha vida”.

José Greco, agora um grande devoto de Padre Pio, teve um sonho no qual se encontrou com o frade em uma estrada e lhe pediu para salvar seu pai enfermo. O pai de José de repente se recuperou depois do sonho. Para agradecer a Padre Pio, José decidiu viajar e vê-lo cara a cara. Depois de esperar quatro dias, José conseguiu ir a Padre Pio para a confissão. Ele descreveu o encontro:

“Em verdade, quando Padre Pio me viu, disse: ‘Pois então, teu pai está bem’. Fiquei atormentado, em razão de nunca haver visitado São Giovanni Rotondo antes. Nunca havia ido a essa parte do mundo, nem conhecia nada ali. E, no entanto, suscitou em minha mente uma pergunta, e questionei-lhe: ‘Foi você, foi você?’. E ele respondeu: ‘No sonho, no sonho...’. Daí comecei a tremer, porque em verdade estava morrendo de medo. Disse: ‘Sim Padre, no sonho, Padre’. Disse-lhe meus pecados, e antes de me dar a absolvição, ele me disse: ‘No entanto, sabes de algo a mais [que não mencionaste na confissão]?’. Disse: ‘Bem Padre, não consigo recordar nada mais’. Padre Pio então começou a descrever um evento com uma moça, quando eu estava no exército. Então me lembrei de tudo. Queria que a terra se abrisse e me engolisse, de tanta vergonha que me consumia. Então disse a Padre Pio: ‘Sim Padre, estou recordando tudo e tenho medo de ter esquecido de dizer em confissão, estou muito envergonhado’. ‘Pois, disse ele, tens carregado este pecado contigo desde 1941, e o lugar foi Blackburn, para dizer a verdade’. Então me levantei para sair, ao que Padre Pio disse: ‘Há algo mais que esqueceste?’, sorrindo levemente. Disse-lhe: ‘Não Padre, de verdade não há mais nada que posso recordar’. Pensei que era sobre algum outro pecado. E ele disse: ‘Veja em teu bolso’. Então saquei minhas contas do rosário [do meu bolso], as dei a ele, que as abençoou e as me deu de volta. E isso foi tudo”.

Um homem disse a Padre Pio em confissão: “Tenho muito apego aos meus pecados; eles são como que necessários para minha vida. Ajude-me a encontrar um remédio”. Padre Pio lhe deu uma oração a São Miguel Arcanjo, e lhe ordenou dizê-la todos os dias por quatro meses.

Padre Nello Castello, um sacerdote de Pádua, Itália, que havia ido confessar-se a Padre Pio centenas de vezes, recordou suas incríveis experiências:

“Fui confessar-me com Padre Pio pelo menos cem vezes. Recordo-me da primeira vez, em que suas palavras, ao mesmo tempo, me assustaram e me iluminaram. Os conselhos que ele me deu refletiam um conhecimento exato de toda a minha vida passada e futura. Às vezes, ele me surpreendia com sugestões não relacionadas com os pecados confessados, e os acontecimentos que se sucederam deixaram claro que seus conselhos haviam sido proféticos. Em uma confissão, em 1957, Padre Pio falou cinco vezes com insistência sobre o mesmo assunto, usando palavras diferentes, e me recordando de um defeito horrível de impaciência. Além disso, me esclareceu sobre as causas fundamentais que provocavam a impaciência. Descreveu-me o comportamento que deveria seguir para evitar a impaciência no futuro. Isto ocorreu sem que eu houvesse dito uma só palavra sobre o problema. No entanto, ele conhecia meus problemas melhor que eu e me aconselhava em como concertá-los”.

Entre os que iam ver Padre Pio, existiam incrédulos declarados. Alguns foram vê-lo por curiosidade, outros para insultarem a Padre Pio e a Deus.

Dois franco-mações, que eram implacavelmente opostos a Deus e à Igreja Católica, decidiram fazer confissões fingidas a Padre Pio de pecados que simplesmente inventaram. O propósito era profanar o Sacramento da Penitência. Estes homens foram a Padre Pio em dias diferentes. Quando eles começaram a confessar seus pecados inventados, Padre Pio lhes interrompeu, dizendo que sabia o que estavam fazendo, e começou a contar cada um de seus pecados reais, informando-lhes o dia, o lugar e como os cometeram. Os dois homens eram tão abrumados que poucos dias depois, se arrependeram de suas vidas pecaminosas e se converteram.

Um comunista incrédulo também foi a Padre Pio para se confessar. Naquele tempo, não havia abandonado suas crenças malvadas. Padre Pio lhe perseguiu fora do confessionário, dizendo: “Que fazes ante o tribunal de Deus se não credes? Fora! Vai-te! És comunista!”.

No confessionário, Padre Pio dizia coisas como:

“Por que vendeste tua alma ao Diabo?... Que irresponsável!... Estás no caminho do Inferno!... Homem negligente, ide primeiro arrepender-se, e então voltes aqui”.

Uma pessoa durante a confissão pôs em dúvida a existência do Inferno. Padre Pio respondeu: “Você acreditará quando chegar lá”.

Padre Pio considerava a ida frequente à confissão algo necessário para o crescimento na vida espiritual. Ele se confessava ao menos uma vez por semana, e não deixava que seus filhos espirituais ficassem sem confissão por mais de dez dias.

Uma vez foi perguntado a Padre Pio: “Confessamos tudo que pudemos recordar ou conhecer, porém é possível que Deus veja outras coisas que não pudemos lembrar?”. Ele respondeu: “Se pusemos [em nossa confissão] toda a nossa boa vontade e se tivemos a intenção de confessar [todos os pecados mortais]... tudo que pudemos recordar ou conhecer – a misericórdia de Deus é tão grande que Ele incluirá e apagará também o que não pudemos recordar ou conhecer”.

Por esta razão, deve ser dito ao final de uma confissão: “... e confesso todos os pecados que tenho esquecidos e não mencionei nesta confissão”.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

São Pio X e o modernismo


a festa de São Pio X, pedimos a intercessão de tão insígne Pontífice para que imitemos o seu exemplo de caridade e zelo.



Desde sua primeira encíclica, Pio X urgia por caridade mesmo para com “aqueles que se nos opõe e persegue, vistos, talvez, como piores do que realmente são”. Esta caridade não era um sinal de fraqueza, mas estava fundamentada na esperança: “a esperança”, escreveu o Papa, “de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a luz e a paz de Deus”.
Pio X também tinha sua esperança – de ver os adversários da Igreja emendando seus caminhos e renunciando seus erros – no que diz respeito aos modernistas.
Os testemunhos que citaremos o provarão de maneira incontestável. Mas Pio X fez mais: discretamente  deu assistência financeira a alguns deles ou lhes arranjou outros ofícios; em outros casos, mostrou-se prudente antes de condená-los. Era esta generosidade, nada excepcional, incompatível com sua determinação na luta contra o modernismo? Como pode o mesmo homem que impõe sanções, depõe clérigos, excomunga, simultaneamente mostrar-se caridoso e contido? Durante o processo de beatificação, o Promotor da Fé apresentou uma série de objeções; uma delas era: “Sejamos francos: a questão, a única questão que, a meu ver, parece se levantar neste grande inquérito, é saber se Pio X, em sua luta contra o modernismo, ultrapassou as fronteiras da prudência e da justiça, particularmente em seus últimos anos…”[Novae Animadversiones, citado em Conduite de s. Pie X, p. 14] A isso, o Postulador da Causa respondeu com um volumoso dossiê de mais de 300 páginas no qual mostrava que Pio X era “firme em seus princípios, correto em suas intenções e paciente e afável com aqueles com quem lidava, mesmo se tivesse razões justas para expressar sua angústia por causa deles”. [Ibid., p. 20]
Voltamo-nos a esta questão da atitude pessoal de Pio X para com os modernistas e citaremos vários casos. Os contemporâneos de Pio X talvez desconhecessem esses gestos de caridade e justiça da parte do Pontífice. No dia seguinte à morte do Papa, Mons. Mignot, que era próximo dos modernistas, repreendeu o falecido nos seguintes termos: “Pio X era um santo, com um desinteresse raro para um italiano, mas suas idéias absolutas paralisavam seu coração… Ele esmagou muitas almas, a quem um pouco de ternura teria mantido no caminho correto”. [Carta de Mons. Mignot a Hügel, 9 de setembro de 1914, citado por Poulat, Histoire, dogma et critique, p. 480] Os historiadores do modernismo não mencionam os gestos de caridade ou justiça de Pio X, ou o fazem apenas de passagem. O número e a consistência destes atos mostram, todavia, que não foram resultados de decisões excepcionais de sua parte, mas manifestavam uma disposição intelectual e uma atitude espiritual. Na luta contra o fenômeno do modernismo, todos os métodos eram usados, e sem piedade, pois Pio X considerava que a fé dos fiéis estava em perigo e que o futuro da Igreja estava em jogo; por outro lado, quando se tratava da sorte dos modernistas, Pio X, sabendo-o, fazia grande esforço para ser o mais justo, prudente e caridoso possível.
Um exame das relações de Pio X com Loisy, o mais famoso dos modernistas, dá-nos uma boa idéia de seus profundos sentimentos. Como já vimos, quando Loisy manifestou sua disposição de se submeter, Pio X exigia, insistia que o exegeta francês devesse fazer uma completa e sincera submissão “com seu coração”. Loisy, que persistiu em seus erros após a Pascendi, acabou excomungado. Viveu em retiro em Ceffonds, Haute-Marne, e logo seria eleito para o Collège de France. No entanto, Pio X não o via como um filho perdido da Igreja. Em 1908, recebendo o novo bispo de Châlons, Dom Sevin, Pio X recomendou-lhe Loisy (a quem ele havia excomungado há pouco tempo). As palavras do Papa foram relatadas pelo próprio Loisy: “O senhor será o bispo do Pe. Loisy. Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele”. [Loisy, Mémoires, vol. III, p. 27. Pe. Lagrange dá outra versão destas palavras, versão que ouviu da boca de Dom Sevin; quando o bispo de Châlons perguntara ao Papa que atitude deveria adotar com relação a Loisy se este demonstrasse arrependimento, o Papa respondeu: Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar” (Lagrange, M. Loisy et le modernisme, p. 138)]
Outro caso é o do Pe. Murri. Como veremos, a Liga Nacional Democrática que fundara foi condenada pelo Papa. Ele tinha conhecidos laços com modernistas. Em abril de 1907, no despertar de uma série de artigos nos quais Murri amargamente criticava a política do Vaticano na França, Pio X enviou uma carta ao bispo da diocese deste líder democrático, instruindo-o a informar a este último que estava suspenso a divinis. Quando, alguns meses depois, a Encíclica Pascendi estava prestes a ser publicada, havia uma certa expectativa de que Murri fosse imediatamente excomungado, dado que estava absolutamente claro que o turbulento líder democrata cristão se oporia à Encíclica. O problema foi colocado a Pio X, que preferiu ser paciente. Em 25 de agosto de 1907, escreveu à Congregação do Santo Ofício: “Se tudo estiver em ordem com o celebret do Pe. Romolo Murri, ele não pode, sem grave injustiça, ser proibido de rezar Missa, na medida em que não realizou qualquer ato condenado pela Encíclica”. [Citado por Dal-Gal, Pie X, p. 404] Murri, contudo, persistiu publicamente em suas posições e foi, ao fim, excomungado em 1909. Posteriormente, ele experimentou graves dificuldades financeiras; Pio X soube disso e pagou-lhe uma pensão mensal.[Depoimento do Cardeal Merry del Val, Summarium, p. 195]
[…]
Pio X tinha de levar muitas coisas em consideração: a salvaguarda da fé e do bem da Igreja, a necessidade e a legitimidade de estudos em matérias de religião, o bem pessoal e a boa fé das pessoas envolvidas, assim como as manobras, as ambições e o zelo das partes. Enquanto Papa, seu dever eram aqueles primeiros; como cristão, estava obrigado a seguir a caridade, prudência e justiça. [...] Pio X sentia como seu dever, enquanto guardião da fé, combater o modernismo, e fazê-lo usando os mais variados métodos e sem fraqueza, pois, como via, a própria existência da Igreja estava ameaçada. Ao mesmo tempo, sem fazer qualquer concessão ao erro, esforçava-se por ajudar os culpados ou suspeitos, e tomava grande cuidado em limitar os excessos dos anti-modernistas. Uma de suas máximas favoritas era: “devemos combater o erro sem ferir as pessoas envolvidas”.
Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 236-237;241-242.