quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Bento XVI prepara nova encíclica sobre a Fé


O Secretário de estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, afirmou no dia 02 de agosto que o Papa Bento XVI prepara uma nova encíclica sobre a Fé, como "um grande presente pelo Ano da Fé".

Ao celebrar a Missa na Igreja Paroquial de Introd, no Vale d’Aosta (Itália), onde passa uns dias de repouso, o Cardeal Bertone comunicou aos assistentes que "o Santo Padre já concluiu o terceiro volume de sua trilogia sobre a vida de Jesus, que consistirá em um manuscrito dedicado a Jesus de Nazaret", e "depois, possivelmente também tenha lugar uma encíclica".

A encíclica do Papa apareceria no contexto do Ano da Fé, estabelecido pelo Pontífice para ser celebrado de 11 de outubro de 2012 a 24 de novembro de 2013, comemorando os 50 anos do início do Concílio Vaticano II e os 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica.

Depois de escrever sobre a caridade e a esperança, uma encíclica dedicada à fé completaria as cartas que o Santo Padre dedicou às outras duas virtudes teologais: Deus caritas est (Deus é amor), de 25 de dezembro de 2005; Spe salvi (Salvos na esperança), de 2007, e Caritas in veritate (Caridade na verdade) de 2009.

Em sua homilia, o Cardeal Tarcisio Bertone assinalou, que o ministério do Papa significa "cuidar de outros, defender os mais fracos, os necessitados e, à imagem e semelhança do bom pastor fazer resplandecer a realeza de Cristo".

Fonte: ACIO Digital


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Fora da Igreja Católica não há SALVAÇÃO

FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO - BULA UNAM SANCTAM  PAPA BONIFÁCIO VIII - 18 DE NOVEMBRO DE 1302 
São LEÃO MAGNO (400-461), PAPA e doutor da Igreja:“Quem se aparta da confissão da verdade, muda de caminho e o percurso inteiro se torna afastamento. Tanto mais próximo da morte estará quanto mais distante da luz católica” 

"SANTO IRINEU (140-202), mártir, foi disciplino de São Policarpo (mártir de Esmirna), que foi discípulo do evangelista São João dizia :“Com efeito é à própria Igreja que foi confiado o dom de Deus. É nela que foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor da incorruptibilidade, confirmação da nossa fé e medida da nossa ascensão para Deus. Pois lá onde está a Igreja, ali está também o Espírito de Deus; e lá onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e toda a graça. BULA UNAM SANCTAM DIZ : ”Una, santa, católica e apostólica: esta é a Igreja que devemos crer e professar já que é isso o que a ensina a fé. Nesta Igreja cremos com firmeza e com simplicidade testemunhamos. Fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o esposo no Cântico: "Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou" (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe "um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (Ef 4,5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; ela foi a figura antecipada da única Igreja; encerrada com "um côvado" (Gn 6,16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído. A esta única Igreja, nós a veneramos, como diz o Senhor pelo profeta: "Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão" (Sl 21,21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma - ou seja, pela cabeça - também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19,23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Disse "minhas" em geral e não "esta" ou "aquela" em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: "Há um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16). As palavras do Evangenho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual. O poder espiritual deve superar em dignidade e nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor 2,15). Esta autoridade, ainda que tenha sido dada a um homem e por ele seja exercida, não é humana, mas de Deus. Foi dada a Pedro pela boca de Deus e fundada para ele e seus sucessores Naquele que ele, a rocha, confessou, quando o Senhor disse a Pedro: "Tudo o que ligares..." (Mt 16,19). Assim, quem resiste a este poder determinado por Deus "resiste à ordem de Deus" (Rm 13,2), a menos que não esteja imaginando dois princípios, como fez Manes, opinião que julgamos falsa e herética, já que, conforme Moisés, não é "nos princípios", mas "no princípio Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice. Dada no Vaticano, no oitavo ano de nosso pontificado

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nuestra Señora de los Martires


Patrona de Atea, Hasta hace pocos años se celebraba siempre el 13 de Mayo. 
En la actualidad la festividad comienza el viernes anterior a mediodía, con volteo de campanas y pasacalles amenizado por banda de música; por la tarde, Misa de Difuntos en la Parroquia. 

El Sábado, se celebra la fiesta de Santa Cruz (años atrás se conmemoraba el 3 de Mayo). Por la mañana, en romería todo el pueblo sube a la ermita de San Lamberto y se oficia la Santa Misa. Posteriormente se sube al cerro de Santa Elena (cerro de Santa Cruz). A medio camino se descansa en la llamada: “Piedra del Refresco” y allí se prueban ricos manjares de la tierra (huevos, torta, vino…) Al llegar a la cumbre, el sacerdote oficiante bendice los términos. De regreso al parque de San Lamberto, las familias y grupos de amigos preparan la comida, comen y descansan, todo ello amenizado por la banda de música. Por la tarde, desde la Cooperativa se baja en Procesión hasta la Iglesia cantando las Aleluyas y cantos de Santa Elena. Ya en la parroquia, hombres y mujeres adoran la “Reliquia”. 

El domingo, los feligreses se desplazan hasta la ermita de la Virgen de los Mártires, se celebra la Santa Misa con Homilía y música. De regreso al pueblo el ayuntamiento invita, en el pabellón, al llamado “Refresco” donde se elige mediante sorteo a las dos personas que al año siguiente serán Priores y portarán la Gira de la Virgen. Es un gran honor para los feligreses (hasta 1992 solo era tradición de hombres) portar sobre sus hombros la Gira y protagonizar las fiestas. 

El 13 de Mayo se celebra Santa Misa en la ermita de la Virgen y se encomiendan las cosechas.


Tourada, o espetáculo de verdade


A vida é um espetáculo cotidiano que só pode terminar com a morte. Lembra-te que és pó e ao pó tornarás, essa lapidar verdade bíblica ressoa na consciência de todo ser vivente que tem noção da efemeridade da existência. O que fazer diante da indiferença da morte? A vida humana é como o pó que o vento carrega, disse uma vez o poeta. Tão breve é a nossa passagem por entre os homens que não é demais repetir com D. Bosco "transierunt tanquam umbra", tudo passou como uma sombra. Hoje vives e falas entre os vivos, amanhã jazerás morto entre os mortos. No silêncio dos Campos Santos não há mais vaidade, não há mais riqueza, não há mais pobreza. Tudo é indiferente perante os túmulos que apenas lembram a histórias vagas de homens-pó.

E na história de nossa vida o que devemos fazer para merecer uma boa morte? Amar e servir a Deus. Amar e servir o próximo, por amor a Deus. Sentenças lapidares e simples, difíceis de cumprir por si sós. Não é por meios humanos que conseguimos o dom sobrenatural de amar, Deus é quem nos dá força, através da graça, para que possamos cumprir o desiderato do nosso passamento sobre a Terra. Nos ensinam os mártires, os que ardiam de amor, a afirmação da vida diante da injustiça. Morrem por amor à Verdade imutável e universal, morrem como testemunhas da Fé imprescritível que existe desde a origem do mundo. A coragem desses homens nos ensina a desprezar a vida física, quando essa tem que ser desprezada. Nos ensina a nos abraçar com a morte, quando ela paradoxalmente é o único meio de afimar a vida plena. O salário do pecado é a morte, mas Deus, em sua infinita sabedoria, despreza a morte física que tanto aflinge a humanidade. A morte, que é fruto do pecado, é a inimizade para com o Pai celeste, é poder não participar das benesses que Ele nos reservou. O católico, o homem nobre, não pode ver na morte a plenitude do fim, mas o início da verdadeira vida.

Assim temos muito a aprender no espetáculo onde se morre de verdade. A tourada compreendeu bem o drama da existência que persegue a jornada do homem. A morte é um touro bravo e enfurcido que anda no nosso encalço diariamente. A qualquer momento podemos perecer. O toureiro é o nobre que compreendeu a desprezar a morte do corpo para louvar a vida. Como os mártires, eles riem da morte que já não os assusta. Ademais, temos que estar sempre vigilantes para que não sejamos surpreendidos em pecado na hora da nossa morte. O traje de luz que os toureiros envergam são como constantes orações elevadas ao céu. O traje o diferencia de todos os homens, e são as armaduras que garantem que sua morte o encontrá belamente ornado. Assim devemos morrer, ornados da graça de Deus para podermos contemplar a sua face no coro celestial. A elegância e o garbor nos ensinam como devemos enfrentar as dificuldades, sem desespero, com temperança, com fortaleza. A estocada depois de tanta vida, nos ensina a paciência em esperar nossa vitória final. Nesses dois espetáculos, vida e tourada, podemos afirmar nossas virtudes mais sublimes, virtudes dadas por Deus, que através de nós, vence a morte e todo o mal que nos apequena e nos acovarda. 

Por Antônio Mauel
Recife, 11/02/2009

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Santas Pepétua e Felicidade


Olivier Clement

Tradução de Jandira S. Pimentel

Martírio: Morte e Ressurreição

MARTÍRIO SIGNIFICA TESTEMUNHO
Mas testemunhar Cristo a ponto de morrer é tornar-se um com aquele que tornou a viver. O martírio cristão é uma experiência mística, a primeira atestada na história da Igreja. Ela é registrada bem no início pelo exemplo de Estevão, o protomártir nos Atos do Apóstolos a saber: "(Estevão) cheio do Espírito Santo, olhou para os céus e viu a glória de Deus, e Jesus de pé à direita de Deus; e ele disse: 'vejo os céus abertos. E o Filho do Homem de pé à direita de Deus'. Em seguida eles o jogaram fora da cidade e o apedrejaram; enquanto o apedrejavam, ele rezava, 'Senhor Jesus, receba meu espírito'. E se ajoelhou e clamou em alta voz, 'Senhor, perdoai-lhes'. E enquanto dizia isto, ele adormeceu (Atos, 7, 55-60)". Visão da glória, rezar pelos executores. Quando a história completa seu ciclo e outra testemunha é levada à morte, esta mesma morte 'abre os céus' e permite que as energias do amor façam sua entrada no mundo.
O martírio foi a primeira forma de santidade a ser venerada na Igreja. E quando não houve mais mártires no sangue, mártires na ascese, vieram os monges por sua vez. Foram os monges que cunharam o dito que expressa o significado do martírio: 'dê seu sangue e receba o Espírito'. O martírio retorna.
Um mártir pode ser, à primeira vista, qualquer homem ou mulher. Mas quando eles são esmagados pelo sofrimento eles são identificados com o Cristo Crucificado, e o poder da ressurreição toma posse deles. Em relatos diretos compostos naquele tempo, sem embelezamento, no início do terceiro século, vemos uma jovem mulher cristã na prisão, gemendo dar à luz seu bebê (se uma mulher grávida fosse presa ela não era enviada para a morte senão depois do parto). O guardião caçoa dela. Mas Felicidade gentilmente explica a ele que no momento do martírio outro irá sofrer por ela. Sua amiga Perpétua na verdade nada sente quando é entregue aos touros selvagens. Ela é momentaneamente poupada antes de sair do êxtase do Espírito, como se acordasse de um profundo sono. E as mártires, antes de enfrentarem a morte juntas, trocam um beijo de paz, como durante a liturgia eucarística.
Para o cristão autêntico a morte não existe. Ele se lança no Cristo Ressuscitado. Nele a morte é uma celebração da vida.
Felicidade estava grávida de oito meses quando foi presa. As dores do parto a acometem. Ela sofria muito e gemia. Um dos guardiões disse a ela, 'se você já está chorando assim, que será de você quando for atirada às feras selvagens?' Felicidade respondeu a ele, 'Então haverá outro dentro de mim que sofrerá por mim porque é por causa dele que estou sofrendo'.
Perpétua foi jogada ao ar primeiro (por um touro furioso). Ela caiu de costas. Assim que pode se sentar, ela prendeu os cabelos que haviam se soltado. Um mártir não pode morrer com os cabelos desalinhados, para não parecer que estivesse pesarosa no dia de sua glória. Então se levantou e notou Felicidade que parecia ter caído. Ela foi até ela, deu-lhe a mão e ajudou-a a levantar-se. Quando viram as duas de pé, a crueldade da multidão diminuiu. As mártires foram levadas para fora pelo portão dos Vivos.
Lá, Perpétua foi recebida por um catecúmeno, Rusticus, que era muito afeiçoado a ela. Ela parecia acordar de um sono profundo, tão longo havia sido o êxtase dela. Ela olhou em volta e perguntou: 'Quando seremos entregues ao touro? Quando lhe foi dito que isso já tinha ocorrido ela não pode acreditar e recusou-se a aceitar a evidência, até que viu em suas vestes e em seu corpo os traços da provação. Então ela chamou seu irmão e o catecúmeno. Disse a eles: 'Permaneçam firmes na fé. Amem-se uns aos outros. Não deixem nossos sofrimentos serem objeto de escândalo para vocês'.
O povo exigiu que as duas mesmo feridas, fossem trazidas de volta para a arena para que pudessem apreciar o espetáculo da espada perfurando seus corpos vivos. As mártires foram ao local que a multidão exigia. Deram-se o beijo da paz para consumar seu martírio, de acordo com o rito da fé. Permaneceram imóveis para receber o golpe fatal. (O Martírio de Felicidade e Perpétua, no ano 203, em Cartago, ed. Knopf-Kruger, p. 35-44.)
O sangue dos mártires é identificado com aquele do Gólgota, e também com o da Eucaristia, que comunica o inebriar da eternidade. O mártir se torna Eucaristia, se torna Cristo. E daí porque as relíquias dos mártires, consideradas como fragmentos do cosmos glorificado, do mundo por vir, são guardadas como relíquias nos altares nos quais a Eucaristia é celebrada.
Ó mártires benditos, cachos de uvas humanos da vinha de Deus, vosso vinho inebria a Igreja. Quando os santos se tornam prontos para o banquete do sofrimento eles bebem o gole calcado no Gólgota e então penetram nos mistérios da casa de Deus. E então cantamos, Glória seja ao Cristo que inebria os mártires com o sangue do seu lado. (Rabulas de Edessa, Hino aos Mártires (Bickell II, p. 262).
Na passagem seguinte da carta escrita por Inácio de Antioquia aos Cristãos de Roma, o Bispo de Antioquia estava sendo levado à capital do Império para execução solene, no início do segundo século, quase todos os aspectos dessa 'morte-ressureição' estão presentes. O mártir triturado pelos dentes dos animais selvagens, como grãos de trigo no moinho, se torna matéria eucarística; ele partilha totalmente na divinização da carne de Cristo; ele reproduz, num sentido quase-litúrgico, a Paixão do Crucificado, de modo a vestir o Glorificado; e a sentir seu poder vitorioso. 'Victor', o vencedor, era o nome dado a cada mártir. Em Cristo, o Espírito é, para Inácio, uma corrente de água viva que leva ao Pai.
Aqui o corpo de morte não é mais dissolvido pela ascese e experiência espiritual, mas rapidamente, pela violência humana. O martírio apressa o nascimento do corpo glorioso.
"Estou escrevendo a todos os cristãos para dizer-lhes que eu estou indo feliz morrer por Deus. Deixem-me ser o alimento das bestas, graças as quais poderei encontrar Deus. Sou o trigo de Deus e estou sendo moído pelos dentes das feras selvagens a fim de tornar-me pão puro de Cristo. Pelo sofrimento serei um liberto em Jesus Cristo e nascerei novamente nele, livre. Que nenhum ser, visível ou invisível me impeça por inveja, de encontrar a Cristo. Que o fogo e a cruz, animais selvagens, tortura, deslocamento de meus ossos, mutilação de meus membros, trituração em pedaços de todo meu corpo, os piores assaltos do demônio caiam sobre mim, contanto que eu encontre Jesus Cristo. Meu novo nascimento está próximo. Perdoem-me, irmãos, não me impeçam de viver. Deixem-me chegar à luz puríssima. Quando eu alcançar este ponto serei um homem. Deixem-me reproduzir a paixão de meu Deus. Que qualquer um que tenha Deus em si compreenda o que eu desejo e tenha piedade de mim, sabendo o que é que me impulsiona. Meus desejos terrenos foram crucificados. Não há mais em mim nenhum fogo para amar a matéria, apenas a água viva que murmura dentro de mim, "Vem para o Pai". É o pão de Deus , que é a carne de Jesus Cristo, que eu desejo e para bebida, desejo apenas seu sangue, que é amor incorruptível." (Inácio de Antioquia aos Romanos, 4-7 - SC 10, p.130-137)
Nos relatos do martírio de Policarpo, bispo de Esmirna, no mesmo período, pode-se ser surpreendido pela simplicidade afetuosa do homem e do poder de sua intercessão. Recebe os oficiais de polícia, como próximos enviados por Deus a ele. Não reza por si mesmo mas por todos aqueles que encontrou, bons ou maus, e pela Igreja universal.
Como é sua consciência que está envolvida, o mártir deliberadamente desobedece as autoridades. Ele proclama calmamente diante dos magistrados e da multidão, que o único Senhor é Cristo, Deus feito homem, e não o detentor do poder, não o poder sacralizado de Roma. Por conseguinte ele afirma a transcendência da consciência, da pessoa feita à imagem de Deus. Ele faz seu o protesto de Antígona e Sócrates, mas na alegria da Ressurreição. Ele relativiza radicalmente a importância política.
Por tudo isso, o mártir não é um rebelde. Como Sócrates, ele aceita a sentença do magistrado e reza pelo imperador. Por esse fato mesmo ele é uma bênção para a cidade dos homens, e sem perturbá-la, ele enriquece-a com uma liberdade intransigente.
O final da passagem retoma a identificação do martírio com a Eucaristia, o testemunho da vitória sobre a morte.
"Sabendo então que os oficiais de polícia lá estavam, ele (Policarpo) desceu e falou com eles. Eles estavam surpresos pela sua idade e sua calma e pelo empenho empregado para prender um homem tão idoso. Serviu-os com tanto alimento e bebida quanto quiseram, pedindo-lhes apenas uma hora para rezar à vontade. Eles permitiram, e de pé, ele começou a rezar tão cheio da graça de Deus que por duas horas não pôde parar, e aqueles que o ouviam ficaram admirados e muitos se arrependeram de ter ido prender um homem tão santo. Em sua oração ele se lembrou de todas as pessoas que encontrou, ilustres e obscuros, e toda a igreja espalhada pelo mundo. Quando terminou, chegando a hora de partirem, eles o montaram num burro e o levaram à cidade. Rapidamente eles empilharam em volta dele o material para a fogueira. Quando iam pregá-lo ele disse, 'deixem-me assim'. Aquele que me dá forças para suportar o fogo também me ajudará a permanecer imóvel na fogueira. Então não o pregaram nela, mas o amarraram. Com suas mãos atadas às costas, ele parecia um carneiro escolhido de um grande rebanho para o sacrifício. Levantando seus olhos aos céus ele disse: 'Senhor, Todo Poderoso Deus, Pai do Bem-Amado e Bendito Filho Jesus Cristo, através do Qual recebemos o conhecimento de Vosso Nome, Deus de toda Criação, Eu vos bendigo por me haverdes julgado digno deste dia e desta hora, para partilhar entre o número de vossos mártires no cálice de vosso Cristo, em vista da Ressurreição do corpo e alma na plenitude do Espírito Santo. E por tudo eu vos louvo, eu vos bendigo, eu vos glorifico, através do eterno e celeste, Sumo Sacerdote Jesus Cristo, vosso bem-amado Filho, por Quem seja dada a glória a vós, com Ele e o Espírito Santo, agora e sempre, Amém.' No meio do fogo ele ficou, não como carne que queima, mas como pão que é assado." (Martírio de Policarpo, Bispo de Esmirna - SC n. 10, p. 250, 252; 260, 262;264)
Os sonhos seguintes, que são visões, mostram as almas dos mártires tomando parte na liturgia celeste como é descrito no Apocalipse. Os jardins do paraíso com as folhas e as árvores cantando sob a brisa do Espírito; um templo ou um palácio com paredes de luz; no centro de tudo isto, o Ancião de muitos dias, cabelos brancos mas a face irradiando juventude; a face de Cristo em sua juventude do Espírito; o beijo da paz; o bocado de alimento oferecido pelo Pastor; o perfume inefável como alimento; tantos símbolos do martírio como estado místico, similar à atual experiência da Eucaristia.
VISÃO DE PERPÉTUA
"Então me levantei. Vi um jardim imenso. No meio havia um homem alto vestido como pastor. Estava ocupado em tirar leite das ovelhas. Em volta dele, aos milhares, homens vestidos de branco. Ele levantou a cabeça, olhou para mim e disse: 'Bem-vinda minha filha.' Ele chamou-me e deu-me um bocado de queijo que havia preparado; eu recebi isso com as mãos juntas. Comi e todos disseram 'Amém'. Ao som das vozes acordei, sentindo o sabor de uma estranha doçura em minha boca. Contei logo esta visão para meu irmão (Saturus) e compreendemos que o martírio nos aguardava."
A VISÃO DE SATURUS
"Nosso martírio havia terminado. Deixamos nossos corpos para trás. Quatro anjos nos carregaram para o Oriente mas suas mãos não nos tocavam. Quando havíamos passado através da primeira esfera que envolve a terra, vimos uma grande luz. Então eu disse a Perpétua que estava a meu lado: 'Eis aí o que o Senhor nos prometeu.' Tínhamos alcançado uma planície vasta que parecia ser um jardim com oleandros e todo tipo de flor. As árvores eram tão altas como ciprestes e suas folhas cantavam sem cessar. Chegamos a um palácio cujas paredes pareciam ser feitas de luz. Entramos e ouvimos um coro repetindo: "Santo, Santo, Santo". No hall está sentado um homem vestido de branco. Ele tem um rosto jovem e seu cabelo brilhava, branco como a neve. De cada lado dele estão quatro homens de pé. Vamos em frente maravilhados e beijamos o Senhor que nos acaricia com sua mão. Os anciãos dizem a nós 'Levantem-se'. Obedecemos e trocamos o beijo da paz. Reconhecemos muitos irmãos, mártires como nós. Por alimento tínhamos todos um perfume inefável que nos saciava plenamente." (Martírio de Felicidade e Perpétua, Ed Knopf-Kruger)

FONTES:

sábado, 14 de julho de 2012

Desaparece bispo recém-ordenado de Xangai



Dom Ma está sendo chamado de ‘bispo corajoso’
Confusão em Xangai. A bagunça que já estava instaurada em uma das mais importantes dioceses católicas da China se agravou nos últimos dias.
O recém-ordenado bispo auxiliar de Xangai, Dom Thaddeus Ma Daqin, foi barrado pelas autoridades chinesas e, na prática, proibido de exercer seu ministério. A Igreja Católica enfrenta problenas na China com novas ordenações realizadas pelo governo sem a permissão do Papa Bento XVI.
O motivo do sumiço de Dom Ma Daqin: ele se recusou a ocupar qualquer cargo na chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês), que é uma espécie de igreja paralela comandada pelo governo comunista chinês para supervisionar a religião, e que funciona no meio das coisas da Igreja Católica.
“Depois da ordenação de hoje, vou dedicar todo esforço ao ministério episcopal. É conveniente para mim não servir mais a um cargo da ACCP”, afirmou o bispo à assembleia na igreja, o que incluía autoridades do governo. Seu discurso foi recebido com grande surpresa entre as cerca de 1 mil pessoas presentes.
Ao recusar posições na ACCP, Dom Ma Daqin se manifestou publicamentecontrário às autoridades do governo comunista. Desde então, ele não apareceu mais em público, nem para celebrar sua primeira missa como bispo. De acordo com a agência de notícias asiática UCA News, religiosos da Diocese de Xangai receberam de Dom Ma Daqin uma cartinha dizendo que estava “mentalmente e fisicamente exausto” depois da ordenação.
Ordenação ilegítima em Sichuan
Parece que ele está em um “período de descanso” em um seminário. Entretanto, segundo fontes da UCA News, o novo bispo está em uma espécie de prisão domiciliar, assim como outros bispos chineses que em algum momento se opuseram à ACCP. Alguns deles se recusaram a comparecer a ordenações irregulares ou a obedecer ordens do governo, por exemplo.
Na véspera da ordenação de Dom Ma Daqin, considerada legítima pelo Vaticano, ocorreu uma ordenação irregular amplamente anunciada pelo governo. O grande problema aí é que, depois de um razoável período de paz com Roma, há alguns meses a ACCP voltou a nomear e ordenar bispos sem autorização do Papa. Antes disso, por algum tempo houve acordo entre as duas partes e as ordenações correram relativamente bem.
O resultado agora é uma grande confusão entre os fiéis. Isso porque muitas vezes, durante as ordenações irregulares, há bispos lícitos que são obrigados a comparecer. E entre ordenações de bispos lícitos é comum aparecerem alguns bispos da ACCP, com aval do governo, como foi no caso de Dom Ma (embora os ilícitos não tenham imposto as mãos sobre sua cabeça, gesto que efetivamente concretiza o sacramento da Ordem).
Outros dois bispos de Xangai:  Jin Luxian (esq) ordinário com 96 anos; e Xing Wenzhi (dir), auxiliar que deveria sucedê-lo, mas sumiu
Veja só como é confuso o caso de Xangai: eles têm lá quatro bispos. O bispo ordinário, Dom Aloysius Jin Luxian, tem 96 anos e ainda lidera a Diocese, pois até agora não apareceu ninguém para sucedê-lo – algo muito raro e uma exceção, pois todos os bispos renunciam aos 75 anos, embora possam ser mantidos por mais um tempo pelo Papa.
Na verdade, o outro bispo auxiliar da Diocese, Dom Joseph Xing Wenzhi, que provavelmente assumiria em seu lugar, também ficou mal com o governo ao se recusar a comparecer a uma ordenação irregular, entre outros motivos. Ele não costuma ser visto.
Outro bispo é o enfermo Dom Joseph Fan Zhongliang, de 94 anos, reconhecido pelo Vaticano, mas não pelo governo chinês e, portanto, liderou por muito tempo “clandestinamente” as comunidades da igreja de Xangai. O quarto é o recém-ordenado Dom Ma Daqin, que também poderia assumir a Diocese oficialmente no lugar do idoso Dom Jin Luxian, mas já foi sumido.
A situação de Dom Ma Daqin agora é incerta, mas algo provavelmente será feito pelo governo. Será liberado e retomará suas funções com cautela ou será mantido preso, resultando numa nova ordenação para Xangai. A Diocese é uma das mais importantes da China, com mais de 150 mil católicos batizados, mais de 60 padres e mais de 70 freiras.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Humildade, fonte de alegria



A humildade é uma nota distintiva básica, um dos fundamentos da autêntica vida cristã, porque é a "morada da caridade". Publicamos um texto espiritual sobre esta virtude.


A Deus ninguém jamais o viu [1], afirma a Sagrada Escritura. Enquanto vivemos nesta terra, não possuímos um conhecimento imediato da essência divina. Entre Deus e o homem há uma distância infinita, e só Ele, adequando-se à condição do ser humano, permite transpô-la por meio da sua Revelação. Deus manifestou-se aos homens na Criação, na história de Israel, nas palavras que dirige através dos profetas e, finalmente, no seu próprio Filho, que é a Revelação última, completa e definitiva, a própria epifania de Deus: quem me vê, vê também o Pai [2].

Um Deus que se faz homem! É surpreendente. Um Deus que, em Cristo, vê e se deixa ver, ouve e se deixa ouvir, toca e se deixa tocar; que se rebaixa à condição humana e se utiliza dos sentidos para fazer-nos entender a chamada à intimidade do seu amor, à santidade. O assombro perante a Encarnação do Verbo move-nos a contemplar com veneração as ações, os gestos e as palavras de Jesus. Quando fazemos assim, descobrimos que tudo na vida de Cristo, do seu nascimento até a morte na Cruz, está repleto de humildade, porque 
existindo na condição de Deus, não se apegou à sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens, e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de Cruz [3].

A HUMILDADE, MORADA DA CARIDADE
A mensagem do amor de Deus chegou a nós por meio do abatimento do Filho. A humildade é uma nota distintiva básica, um dos fundamentos da autêntica vida cristã, porque é a morada da caridade. Santo Agostinho afirma: «Se me perguntais o que é mais essencial na religião e na disciplina de Jesus Cristo responderei que o primeiro é a humildade, o segundo a humildade, e o terceiro a humildade»[4]. A humildade do Verbo encarnado, além de mostrar a profundidade do amor de Deus por nós, ensina-nos o caminho real que nos conduz à plenitude desse amor.

A vida cristã consiste na identificação com Cristo. Só na medida em que nos unimos a Ele somos introduzidos na comunhão com o Deus vivente, fonte de toda caridade, e nos tornamos capazes de amar os outros homens com o mesmo amor com que Ele nos amou [5]. Ser humilde como Cristo significa servir a todos, morrendo ao homem velho, às tendências que o pecado original desordenou na nossa natureza. Por isso, o cristão entende que «as humilhações, levadas por amor, são saborosas e doces, são uma benção de Deus»[6]. Quem assim as recebe, abre-se a toda a riqueza da vida sobrenatural e pode exclamar com São Paulo: renunciei a todas as coisas, e as considero como esterco para ganhar a Cristo, e ser encontrado nEle [7].

AS CAUSAS DO DESASSOSSEGO
A soberba produz somente inquietação e insatisfação, em contraste com o profundo gozo interior que provém da humildade. A soberba orienta as coisas para o próprio eu e analisa todos os acontecimentos por uma perspectiva exclusivamente subjetiva: se as coisas agradam ou não, se trazem uma vantagem ou exigem esforço... E não considera se se trata de algo bom em si mesmo ou para os outros. Esse egocentrismo leva a julgar o modo de atuar ou de pensar dos outros de acordo com as próprias categorias, e a mover-se com a pretensão, mais ou menos explícita, de que os outros devem comportar-se como a pessoa deseja. Isto explica por que um homem soberbo é vítima de freqüentes aborrecimentos quando acha que não o consideram suficientemente, ou fica triste ao perceber os seus próprios erros ou as melhores qualidades dos outros.

Quando alguém se deixa levar pela soberba, ainda que procure buscar a sua própria complacência, sempre alberga um ponto de desassossego. O que lhe falta para ser feliz? Nada, porque tem tudo. E tudo, porque perdeu de vista o fundamental: a sua capacidade de dar-se aos outros. O seu comportamento forjou um modo de ser que lhe dificulta encontrar a verdadeira felicidade. Assim o advertia o Fundador do Opus Dei: «Se alguma vez se sentirem incômodos, e perceberem que a alma se enche de intranqüilidade, é que estão pendentes de si mesmos (...). Se você, meu filho, estiver centrado em si mesmo, não só vai por um mau caminho, mas, além disso, perderá a felicidade cristã nesta vida»[8].

A soberba é sempre um eco daquela primeira rebelião em que o homem tentou suplantar a Deus, perdendo, como conseqüência, a amizade com o Criador e a harmonia consigo mesmo. O indivíduo orgulhoso confia tanto em suas potencialidades, que chega a esquecer a sua natureza carente de redenção. Por isso fica desconcertado, não somente perante a doença física, mas até mesmo pela inevitável experiência dos limites, defeitos e misérias, e pode até desesperar. Vive de tal modo apegado aos seus próprios gostos e opiniões que não consegue apreciar nem valorizar positivamente uma visão diferente da sua. Por isso não consegue resolver os seus conflitos interiores e está sujeito a reiteradas discordâncias com os outros. Esta dificuldade de submeter-se a outras vontades leva-o também a não aceitar a vontade de Deus. Convencer-se-á facilmente da impossibilidade de que Deus lhe peça aquilo que ele não deseja e pode suceder inclusive, que a própria consciência de ser uma criatura dependente de Deus se converta para ele em um objeto de ressentimento.


A FORÇA DE ATRAÇÃO DA HUMILDADE
Por outro lado, para a pessoa humilde, confrontar-se com a vontade de Deus é causa de alegria. Mais ainda, é o único motivo de verdadeiro júbilo. Certamente, ao pôr-se diante dEle, descobre a sua finitude e a sua pequenez. Mas a sua condição de criatura, longe de ser uma ocasião de tristeza ou desesperança, é fonte de íntima alegria. A humildade é uma luz que leva o homem a descobrir a grandeza da sua própria identidade, como ser pessoal capaz de dialogar com o seu Criador, e a aceitar, com completa liberdade, a sua dependência dEle.

A alma da pessoa humilde experimenta a maior plenitude interior quando percebe que o Ser absoluto é um Deus pessoal de magnificência infinita, que nos criou, nos mantém na existência, e se nos revela com um rosto humano em Jesus Cristo. Conhecer a generosidade divina e a sua condescendência para com as suas criaturas leva a pessoa humilde a desfrutar — contemplando a beleza das coisas criadas, onde descobre um reflexo do amor de Deus —, e sente-se movida a compartilhar com os outros esse permanente deslumbramento.

As reações do soberbo e do humilde perante a chamada de Deus são também muito diferentes. O soberbo esconde-se numa atitude de falsa modéstia, alegando que tem poucos méritos, porque não quer renunciar ao mundo que construiu para si. A pessoa humilde, pelo contrário, não se detém a julgar se é demasiado pouca coisa para alcançar a santidade. Basta-lhe identificar o convite de entrar em comunhão com Deus para aceitá-lo com alegria, por muito que isto o surpreenda.

Os que lutam para ser verdadeiramente humildes — como é o caso dos santos — adquirem uma personalidade atraente. Com o seu comportamento habitual, conseguem criar em torno de si um remanso de paz e de alegria, porque reconhecem o valor dos outros. Apreciam-nos de verdade e, por isso, em suas conversas cotidianas, na vida em família ou no relacionamento com colegas e amigos, sabem compreender e desculpar. O interesse em ajudar e conviver com todos é aquilo que os move. São capazes de reconhecer o que devem aos que o cercam, sem pretender e nem reclamar direitos. Numa palavra, ao seu lado se apalpa o amor de Deus que anima as suas vidas. Todos experimentam a sua confiança: não se sente julgadas, mas queridas.

RECOMEÇAR A APRENDER A SER HUMILDES
A causa do sufoco ou do pessimismo que às vezes nos invadem, em geral não se encontra na pequenez humana ou no esforço que devemos realizar diante de uma determinada tarefa, mas em ver as coisas com uma perspectiva demasiadamente centrada no eu. «Por que é que nós, os homens, nos entristecemos? », perguntava São Josemaria. E respondia: «Porque a vida na terra não se desenvolve como nós pessoalmente esperávamos, porque surgem obstáculos que impedem ou dificultam que levemos a cabo o que pretendemos»[9].

É possível experimentar certa sensação de tristeza perante as dificuldades pessoais ou alheias, perante defeitos próprios observados com mais rigor do que no passado, ou que se julgavam superados; perante a possibilidade de alcançar objetivos profissionais ou apostólicos, perseguidos com entusiasmo e esforço durante muito tempo. Também é possível experimentar a rebeldia por não querer aceitar alguns acontecimentos ou circunstâncias que contrariam ou fazem sofrer. Sempre, mas especialmente em tais momentos, é necessário — como aconselhava D. Álvaro del Portillo em uma de suas cartas — renovar o propósito de recomeçar a aprender a ser humildes [10]: pedindo ao Senhor a humildade, a sua humildade, e recorrendo à Virgem Maria para que nos ensine e nos dê forças. Este é o sentido das palavras do Senhor: 
vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu peso é leve [11]. Por isso a alma enamorada aprende a ser humilde, cada dia, na oração: «A oração” é a humildade do homem que reconhece a sua profunda miséria e a grandeza de Deus, a quem se dirige e adora, de maneira que tudo espera dEle e nada de si mesmo»[12]. A paz somente é recuperada quando, ao invés de raciocinarmos e refletirmos em nosso interior sobre o que nos acontece, procuramos deixar de lado estas preocupações e voltamos a Cristo.

«Alma calma»[13]. Estas palavras, muito apreciadas pelo Fundador, sintetizam todo um programa de vida em que a alma, contando com a graça divina, enfrenta qualquer dificuldade com ardor e prudência. Quando se vive assim, cumpre-se o que São Josemaria ensinava: «Todas aquelas contradições que tantas vezes nos fizeram sofrer, não foram a causa da perda da alegria e da paz em momento algum, porque pudemos experimentar que o Senhor tira doçura — mel saboroso — das rochas áridas da dificuldade: de petra, melle saturavit eos (Sal 80, 17)»[14].

A nossa Mãe Santa Maria faz-nos presente a necessidade de sermos humildes para vivermos perto de Deus. Ela é modelo de alegria, precisamente porque também é modelo de humildade: A minha alma glorifica o Senhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na baixeza da sua escrava [15].

[1] 1 Jo 4, 12

[2] Jo 14, 9

[3] Fl 2, 6-8

[4] Santo Agostinho, Epist. 118, 22

[5] Cf. Rom 5,5

[6] São Josemaria, anotações tomadas numa meditação, 25/12/1973

[7] Fl 3, 8-9

[8] São Josemaria, anotações tomadas numa meditação, 25/12/1972

[9] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 108

[10] D. Álvaro del Portillo, Carta 1/5/1990

[11] Mt 11, 28-30

[12] São Josemaria, Sulco n. 259

[13] São Josemaria, anotações tomadas numa tertúlia, 9/11/1972

[14] São Josemaria, Carta, 29/09/1957, n. 4

[15] Lc 1, 46-48



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